Em busca dos embaixadores peludos da ilha com Kim McCabe

Se você já sentiu atração pela natureza selvagem – realmente selvagem – precisa ter a sensação de se encontrar cara a cara com uma das mais de 100 espécies de lêmures peludos e de olhos arregalados de Madagascar. Brancos, marrons, vermelhos, pretos, grandes como cachorros, pequenos como ratos, tímidos e silenciosos, barulhentos e ruidosos, a variedade desses primatas é um deleite para os viajantes que buscam algo inusitado.

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Com seus grandes olhos e caras de raposa, o nome “lêmure” vem do latin lêmures, ou fantasmas. Mas para a sorte dos viajantes, eles não são uma aparição. Como quase 90% das plantas e animais de Madagascar, esses animais exóticos são endêmicos da ilha, ou seja, não existem em outros lugares do mundo.

Hoje, é preciso esforçar-se um pouco para vê-los, mas se tiver disposição, não irá se arrepender. Na busca pelos elusivos lêmures, vai encarar estradas longas e esburacadas, caminhadas pra cima e pra baixo, por entre arbustos grossos e espinhosos, sobre solos pedregosos, pela madrugada ou durante a noite.

Começando na capital Antananarivo e dirigindo para leste em direção ao Oceano Índico, nosso primeiro ponto de exploração é a Reserva Peyrieras. Subindo toda vida por uma estrada de terra através da floresta verde-neon, fomos rapidamente recompensados com o primeiro avistamento de lêmures. Um grupo de cinco indivíduos marrons que estavam loucos para roubar algumas frutinhas do lanche dos nossos guias de trilha.

Um lêmure marrom pousando para foto

 

Logo acima da trilha, um grupo de lêmures Coquerel´s sifaka nos hipnotizou com seus olhos amarelos, pelagem branca e pernas longas. Como o resultado do cruzamento entre um urso de pelúcia e um panda, esses lindos lêmures pulam pelas árvores agachados como se fossem sapos gigantes. Apenas com a força das pernas traseiras, eles se projetam a distâncias de mais de 10 metros. Tivemos bastante sorte de poder assistir a essa exibição atlética e ver mamães sifakas com os bebês agarrados a barriga.

 

Sendo estudado por um lêmure Coquerel’s sifaka

 

De volta ao ônibus e prosseguindo para o leste, a próxima parada na trilha dos lêmures foi numa das joias naturais do Madagascar: O Parque Nacional Andasibe-Mantadia. Com uma área de mais de 150 km² e uma floresta densa e úmida recoberta por cipós, musgos, samambaias e grandes ninhos de cupins, essa sim que foi uma trilha e tanto.

Para usar a referência de um filme, parecia uma cena de Na Montanha dos Gorilas (sem os gorilas), com muita névoa e orvalho ocultando o caminho. Chegando na Reserva Especial Indri, nosso guia nos levou para fora da trilha entre as árvores, com olhos e ouvidos votados para o dossel. Foi então que um dos sons mais estranhos, penetrantes e surpreendentes de toda a natureza nos recompensou: a vocalização do Indri.

Os lêmures Indri são os maiores e mais barulhentos da Terra. Preto e branco com grandes orelhas de pompom e pernas poderosas, eles chamam uns aos outros com um grito agudo que vibra direto dentro no âmago do seu ser. É mítico, impressionante e muito incrível.

Escutando o chamado do Indri

 

No Reserva também há sifakas-de-coroa-dourada, primos dos Coquerel´s, e talvez ainda mais bonitos. Depois de se embrenhar pela densa floresta e agarrar-se nos cipós em busca de apoio, nosso grupo encontrou uma clareira onde sentar-se e observar uma família desses lêmures sociais e brincalhões curtindo seu dia. Apenas alguns metros à frente, um par de pequeninos caiu do galho da árvore brincando de brigar e uma jovem mãe tentava impedir que seu bebê corresse para longe. Ali próximo, um papai sifaka acariciava e cortejava sua parceira. Nós olhávamos embasbacados, tirando foto, gratos por esse encontro.

Essa família de sifakas-de-coroa-dourada dividindo um momento privado

O próximo na trilha era o Parque Nacional Ranomafana, uma floresta tropical montanhosa e densa na província de Fianarantsoa no sudeste de Madagascar, com uma altitude variando entre 800 e 1,200m. Umas 12 espécies diferentes de lêmures são encontradas aí, mas o parque é conhecido por duas criticamente ameaçadas: o lêmure grande do bambu e o lêmure dourado do bambu os quais se alimentam dos bambus gigantes do Madagascar.

Observar esses pequenos e tímidos primatas no seu habitat natural requer botas robustas e esfoço físico extra, e os membros do grupo concordaram que essa foi a parte mais desafiadora da viagem. Mas a nossa labuta foi recompensada: todas as fantasias de Tarzan foram satisfeitas.

Um lêmure do bambu no Parque Nacional Ranomafana

Viajamos para o sudoeste rumo à Reserva Comunitária Anja na margem do Parque Nacional Isalo, o segundo mais antigo parque nacional do país. Anja é conhecida por abrigar um dos grupos mais acessíveis de lêmures de rabo anelado, cuja população cresceu de 150 a 850 indivíduos nos últimos anos graças aos esforços de conservação. Se você já assistiu ao filme “Madagascar”, pense no Rei Julian e vai saber de quem estamos falando.

Caminhando na reserva – que emprega artesãs, guias e jovens no turismo – encontramos um terreno diferente: mais seco, com mais pedras e mais monocromático. Nessa parte central do Madagascar, maciços calcários despontam da terra e os ventos são frenéticos. Após uma curta caminhada, encontramos a primeira “gangue” de lêmures de cauda anelada. Enrolados como bolas de pelo para se aquecer no vento, esses grupos são liderados por fêmeas e oferecem tantas oportunidades de foto que o pescoço chega a doer. Uma dor gostosa.

Lêmure de calda anelada estilo King Julian

Vimos outras espécies de lêmures e fizemos outras paradas na trilha, momentos de observação e fotografia da vida selvagem que fazem inveja aos amigos. E ainda bem que o fazem. O Madagascar tem trabalhado duro para se recuperar da instabilidade política recente e do isolamento econômico, investindo mais em cultura e ecoturismo. Por isso, esses embaixadores peludos são tão importantes na atração de viajantes de aventura.

 

 

 

Tradução livre: texto original e créditos fotográficos de Kim McCabe.