Um modelo de turismo sustentável em Santiago de Agencha

Em meados do mês de Junho faz frio em Santiago de Agencha. Nessa época do ano, comunidade boliviana em Potosi a 3.723 metros de altitude, é fresca durante o dia, mas as temperaturas podem cair abaixo de zero à noite. Não dá pra ver a própria respiração só porque o ar é absolutamente seco.

Visual da comunidade de Santiago de Agencha pouco antes do nascer do sol

Visual da comunidade de Santiago de Agencha pouco antes do nascer do sol
Mesmo sem a extraordinária viagem a partir de Uyuni pelo famoso deserto de sal da Bolívia, visitar Santiago já valeria a pena pela sua beleza única: florestas de cactos altivos que se espalham pelo terreno montanhoso e pedregoso, quase sem vegetação, dão à área uma atmosfera quase de outro planeta. Não que isso já não fosse esperado, considerando a estranheza da planície salina que se atravessa para chegar lá. Mas juntando as temperaturas baixas, a paisagem lunar e a localização remota (não há wifi por lá), Santiago de Agencha parece, à primeira vista, um ambiente que não se deixa domar facilmente por locais e muito menos por turistas. Poucas pessoas vivem no lugar. Ao longo do caminho pela planície, é mais fácil encontrar um rebanho de vicunhas, espécie local ameaçada de extinção, do que um ser humano.

Graças a Deus existe a Hospedaria Jukil! E você sabia que pode visitar o Salar Uyuni e ficar na Hospedaria Jukil com a GoLocal?

Para chegar à Jukil, é preciso pegar um voo rumo a La Paz, cujo aeroporto é o mais alto do mundo, a cerca 1.200 metros de altitude. Daí se voa para Uyuni e dalí, por terra, através de planícies e montanhas por mais uns 45 minutos, para Santiago. Ou seja, a viagem é longa, mas belíssima! É mais do que merecido repousar, pouco depois, na grande sala de refeições Hospedaria, com mesas e bancos feitos de robustos blocos de sal escavados diretamente das planícies salinas. Melhor ainda é participar de uma procissão de comidinhas locais que esquentam o corpo e a alma: caldo de frango, milho e batatas roxas; pão recém-saído do forno e um copo alto de uma bebida feita com quinoa tostada, fervida, temperada, adoçada e servida quente. Aliás, a região é uma das grandes produtoras desse cereal altamente proteico.

A proteica quinoa, um dos alimentos mais cultivados na região

 

A Hospedaria Jukil é um bonito e acolhedor pedaço de paraíso nas montanhas de Potosi, mas não foi sempre assim. De 2011 a 2016, ela foi fechada devida à pobre infraestrutura e à falta de clientes. Naquela época, a Hospedaria dependia principalmente da sorte para sobreviver: ao invés de receber grupos regulares, Jukil abrigava o viajante ocasional que se aventurava pelas planícies buscando acomodação por uma noite ou duas. Não era o suficiente para sustentar a estrutura ou evitar que os moradores de Santiago de Agencha buscassem emprego em lugares mais prósperos economicamente.
O projeto de revitalização do turismo de base comunitária começou em 2016 e, com o apoio da “Live Out There and Altitude Adventures” e da ONG Planeterra, renovou e expandiu a Hospedaria. Jukil agora pode abrigar 42 viajantes de cada vez no seu pequeno vilarejo de cabanas de sal e pedra, cada uma equipada com colchões macios e chuveiros quentes (tanques de água são aquecidos usando painéis solares). O piso das cabanas, como as paredes, são feitos de sal. Se você acredita que as cavernas de sal são boas para a saúde, Jukil te proporciona a noite mais restauradora da sua vida (na verdade, mesmo se você não acreditar).

Mas acomodações confortáveis e uma atmosfera acolhedora são apenas parte da história. Com a capacidade e a equipe ampliadas e planos para oferecer ainda mais oportunidades de emprego à comunidade local, os esforçados trabalhadores de Jukil mereciam uma super capacitação. Então, na primavera de 2017, a Planeterra levou um grupo de cinco líderes comunitários de Jukil para uma semana de intercambio o Restaurante Comunitário Parwa, um projeto similar da ONG no Peru. Ali, os bolivianos fizeram uma imersão total no gerenciamento de um empreendimento social de sucesso, tendo inclusive vivido como viajantes por dois dias no local.

As belas cabanas da Hospedaria Jukil feitas de pedras e blocos de sal

“O objetivo da viagem foi ver como a indústria do turismo funciona no Peru e como outras iniciativas comunitárias de turismo estão realizando suas operações,” explica Nico, gerente de Jukil. “É muito importante pra gente conhecer como outras comunidades enfatizam a cultura local para os viajantes.”
Entre os trabalhadores de Jukil que viajaram para o Parwa estava Jamina, uma mulher de Potosi que trabalha na cozinha da Hospedaria. Ela disse que a viagem, a primeira que fez para fora do país como turista, foi uma oportunidade valiosa de observar as mulheres do Parwa interagindo com turistas em escala grande e constante. “Aprendemos a receber os viajantes do jeito que eles recebem”, declara Jamina.

O interior das cabanas da Hospedaria Jukil com colchões macios e água quente

Ela também disse que algumas das outras iniciativas de Parwa, como uma estufa onde o restaurante cultiva sua própria comida, inspirou Jukil a pensar em como poderia implantar sistemas parecidos no futuro. E a Cooperativa de Mulheres Tecelãs, outro projeto da Planeterra no Vale Sagrado do Peru, a deixou particularmente inspirada: “Vi como elas tingem o algodão com plantas”, ela disse, “e aqui temos muitas plantas e raízes. Quero aprender mais sobre tinturas naturais, porque temos também muito algodão aqui.”
Conhecer iniciativas sociais de turismo em Parwa e outros lugares é importante para Jukil porque a Hospedaria e os viajantes são essenciais para a comunidade. “Eles nos trazem oportunidades”, diz Nico. “Muitos jovens estão indo para as cidades procurar emprego, mas nós queremos criar oportunidades para eles aqui. Assim, poderemos também melhorar nossa qualidade de vida.”
Tradução livre do post original de Rebecca Tucker