A blogueira de viagens Lauren Marinigh viajou para o Nepal para encontrar uma comunidade comprometida em compartilhar seu modo de vida com o mundo.

Viajando pelo Nepal, pela primeira vez percebi que a minha decisão de visitar determinado lugar pode ter um impacto tangível na economia. Dos restaurantes locais, gerenciados e operados por pessoas extremamente humildes e agradecidas, até uma acolhida das mais calorosas da equipe do hotel. Eu sabia desde o primeiro dia que essa aventura ficaria marcada por muito tempo que as tatuagens de henna.

Eu tinha viajado pela Índia antes de ir para o Nepal. Quando atravessamos a fronteira, o contraste entre os dois países foi evidente. Fomos das ruas caóticas com tuk-tuks vindo na sua direção de todos os lados, para uma atmosfera muito mais calma e pacífica, com uma paisagem de tirar o fôlego.

Uma casa de tradições

Nossa primeira parada foi a Hospedaria Comunitária Barauli, localizada perto do Parque Nacional Chitwan, o primeiro parque nacional do Nepal. Ao dirigirmos pelas pequenas cidadelas que levam à hospedaria, era evidente a curiosidade das pessoas que acenavam para a gente. Para ser honesta, ir do caos da Índia para o que parece o meio de lugar nenhum foi uma boa mudança, e ser alguns dos únicos turistas do lugar, me pareceu um grande privilégio.

As mulhers Tharu e sua calorosa boas vindas.

Assim que chagamos ao nosso destino, fomos recebidas pelas mulheres Tharu com seu vestido tradicional. Tharu é um grupo nativo de Terai, as montanhas sulinas do Himalaia que atravessam tanto a Índia quanto o Nepal. Enquanto caminhávamos na propriedade, marcas rituais de uma pasta vermelha chamada “tilak” foi feita nas nossas testas e guirlandas de florestas frescas foram colocadas ao redor dos nossos pescoços, marcas tradicionais de respeito e honra. De certa forma, sentíamos que havia alguma coisa fora do lugar: éramos nós que deveríamos agradecê-los pelo privilégio de estar ali naquela comunidade.

Diferente de outras vivências locais onde você talvez fique numa casa de família, a comunidade Barauli reuniu várias famílias que possuíam alguma terra e juntos construíram cabanas para abrigar seus hóspedes. As cabanas são curadas pela família em cuja terra elas estão. Minha cabana chamava-se Nanu e tive uma agradável surpresa quando abriram a porta daquela casinha tão linda que eu chamaria de lar pelos próximos dias.

Minha irmã faz pose em frente a nossa cabanas.

Como parte das iniciativas de ajuda implementadas depois do devastador terremoto que atingiu o Nepal na primavera de 2015, a ONG Planeterra levantou fundos para instalação de painéis solares e sistemas de aquecimento de água na Hospedaria Comunitária Barauli. Esses painéis solares e sistemas de água servem hoje onze cabanas na comunidade, inclusive a nossa.

Sopas e por do sol

Sempre apreciei o silêncio da natureza e depois das cacofonias na Índia, minha apreciação foi renovada. Saímos para a estrada para dar uma volta pela comunidade. As ruas de terra eram ladeadas por pequenas casas coloridas com famílias e crianças brincando na frente. Galinhas e pintinhos ciscavam nos quintais e os cachorros locais eram nossos guias.

Duas crianças locais felizes por serem fotografadas.

Antes do por do sol, pegamos algumas bicicletas e nos dirigimos para o Rio Narayani (na fronteira com o Parque Nacional Chitwan) para o por do sol.

Depois do por do sol, voltamos para a hospedaria onde algumas pessoas da comunidade fizeram uma apresentação tradicional. As famílias se reuniram todas ao redor enquanto assistíamos a danças e músicas tradicionais, incluindo a famosa dança Tharu com gravetos. Na última dança da noite, todos nós fomos convidados a dançar junto.

O por do sol no Parque Nacional Chitwan.

No final da noite, comemos uma deliciosa refeição nepalesa, a dal-bhat-tarkari (uma sopa feita de lentilhas com temperos, arroz, e curry de vegetais), e nos sentamos à beira do fogo para relaxar no calmo e pacífico vilarejo.

Raramente temos a oportunidade de experimentar uma vivência local, mas quando a oportunidade surgir, sinta-se honrado e agradecido. É preciso muita confiança para uma comunidade acolher turistas, mas um nível de doação bem superior é necessário para convidar grupos de pessoas na sua propriedade e na sua casa. A comunidade Barauli em particular não se beneficia muito do turismo devido à sua posição do lado oposto do Parque Nacional Chitwan. A iniciativa da hospedagem comunitária foi a primeira ação do povo Tharu na área do turismo. Minha experiência visitando a comunidade foi inesquecível e sou feliz pela oportunidade de retribuir a todo bem que nos fizeram.

 

Tradução livre do texto de Lauren Marinigh e fotos da mesma autora.