Os premiados escritores de viagens e defensores do turismo sustentável, Daniel Noll e Audrey Scott, aprendem sobre a cultura aborígene numa visita ao Café Chloe.

 

“Meu objetivo para a comunidade aborígene é que um dia possamos ser vistos simplesmente como humanos, com os mesmos sentimentos e medos. É para isso que estamos trabalhando aqui. ” – Dr. Ernie Grant, Ancião do povo da floresta Jirrbal e estudioso.

 

Parte da equipe do Café Chloe em frente ao espaço recém-renovado na estação de trem.

O mapa aborígine da Austrália colocado diante de nós sobre a mesa do Café Chloe não era apenas visualmente atraente, todo colorido, mas era também era instrutivo. Sempre considerei o povo aborígene como um só, e não imaginava uma miríade de culturas diferentes, cada uma com sua própria lingua e história.

Esta era uma informação nova para mim como, suspeito, para a maioria dos outros viajantes presentes. Todos se inclinaram quando o Dr. Ernie Grant, ancião do povo da floresta Jirrbal e estudioso aborígine, disse algo ainda mais chocante. Até 1967, os aborígenes australianos eram considerados legalmente como parte da flora e da fauna – plantas e animais. Isto é, não humanos. Ou seja: Até 50 anos atrás, o povo aborígene, uma das mais antigas culturas humanas sobre a Terra (40-50.000 anos), não possuía nenhum direito humano aos olhos do estado moderno em que vivia.

Esse foi o pano de fundo de um novo projeto Aventuras do Bem: o Café Chloe.

 

Café Chloe: uma estação de trem com vida nova

O Café Chloe, situa-se numa antiga estação de trem na cidade de Tully, Queensland, e leva o nome da mãe do Dr. Grant. Serve como um centro de treinamento profissional e de interação com viajantes. Tendo sido iniciado e desenvolvido pela comunidade Jirrbal, o projeto baseia-se numa intrínseca compreensão da cultura local e do contexto socioeconômico. O objetivo do café e de sua oferta de experiências culturalmente relevantes é oferecer qualificação e oportunidades de trabalho para jovens aborígines locais.

Nossa viagem com a National Geographic Journeys e a G Adventures começou com o Dr. Grant dando uma visão histórica do período logo após a chegada dos colonos europeus à Austrália. Ele explicou a consequência das deportações forçadas, dos assassinatos e da discriminação no desaparecimento do modo de vida tradicional aborígene.

Por meio de interações com o Dr. Grant e a equipe do Café Chloe, os viajantes começam a entender a mentalidade e a visão de mundo dos Jirrbal, centradas nas relações harmoniosas entre a natureza e as pessoas. Uma coisa é ler sobre conceitos, escutar canções e ouvir histórias, mas outra bem diferente é sentar-se à uma mesa para um diálogo aberto sobre o patrimônio cultural desses povo.

Essa oportunidade superou qualquer expectativa que eu poderia ter de interação com os nativos australianos. Também contrastou muito com a minha primeira viagem ao país há 18 anos. Uma das excursões que fiz foi uma “Experiência Cultural Aborígine” – uma visita a uma aldeia completa com um membro da tribo em roupa tradicional, pintura facial e um didgeridoo (instrumento musical). Para ser justo, a experiência tinha alguns elementos interessantes, mas me envergonho ao perceber agora o quão superficial ela foi e indiferente ao contexto atual. Hoje, tenho consciência de quantos viajantes que interagem com as comunidades aborígines na Austrália veem algo estereotipado, quase um zoológico humano.

Este é um dos padrões que a Café Chloe está tentando mudar através de seu processo de co-aprendizado e criação.

 

Símbolos aborígines: pintar para entender

Depois de um almoço de peixe assado na brasa envolto em folhas de gengibre selvagem, era hora dos viajantes criarem, pintando a sua interpretação dos símbolos Jirrbal e tendo uma história como inspiração. Note: uma história não é apenas uma história, mas uma janela para o entendimento de uma cultura. Para o povo Jirrbal e as comunidades aborígines em geral, contar histórias é fundamental, uma tradição oral levada adiante por dezenas de milhares de anos. Essa prática permite que os membros da comunidade entendam quem são e, ao mesmo tempo, absorvam lições de vida e orientações sobre temas como plantas e animais venenosos, alimentos nutritivos a opções de uma vida de forma sustentável na terra.

Ouvir a história da criação Jirrbal ajudou a inspirar a pintura do grupo.

Sonya, filha do Dr. Grant e líder do projeto, explica que treinar os alunos para compartilhar histórias Jirrbal não representa apenas treinamento profissional e experiência. Compartilhar histórias com viajantes de todo o mundo também permite que os jovens aborígines apreciem sua identidade e sua cultura tão valiosa.

A criação de empregos para a comunidade Jirrbal também é importante. Um dos objetivos de curto prazo do projeto é empregar 12 pessoas que, de outra forma, não teriam oportunidades localmente. O resultado: quanto mais membros Jirrbal estiverem trabalhando e compartilhando sua cultura, mais forte a comunidade se tornará.

 

Um contexto australiano mais amplo: como tudo se conecta

Somente depois que nossa viagem pela Austrália terminou, ocorreu-me que a viagem também teve seu próprio papel como uma história essencial, passando do óbvio ao sutil.

Deixe-me explicar.

De Queensland, a província onde fica o Café Chloe, voamos para Uluru. A vastidão da paisagem tingida de vermelho do Outback australiano, pontilhada por pequenas aldeias, revelava-se abaixo de nós. Sobrevoamos em apenas algumas horas territórios onde culturas inteiras haviam se movido muito lentamente, migrado e evoluído ao longo de milênios. Nessa imensa paisagem, relembrei o mapa da diversidade de povos aborígines do Dr. Grant.

Em Uluru e Kata-Tjuta, as terras sagradas do povo anangu, tudo começou a fazer ainda mais sentido. Nosso guia compartilhou histórias que envolviam os marcos geográficos ao nosso redor: falhas e crateras, pedras e um poço de irrigação. Essas histórias eram tentativas dos antepassados ​​aborígines em compreender e identificar-se com o ambiente. Através das histórias, eles ensinavam uns aos outros como sobreviver em uma terra extremamente árida.

É possível compreender as marcas escuras e os contornos de Uluru na história da criação de Kuniya.

Por mais estranho que isso tenha sido para mim na época, me ocorreu um pouco mais tarde que eles têm uma maneira completamente diferente de ver a vida, suas origens e as implicações disso tudo para o seu dia-a-dia. Lembrei-me da história que o tímido estudante colegial Jirrbal havia contado ao nosso grupo no Café Chloe pouco antes de partirmos para pintar nossas próprias interpretações. As semelhanças eram claras, pude ver bem a ligação.

É possível compreender as marcas escuras e os contornos de Uluru na história da criação de Anangu.

Com nossas mentes cheias de imagens, partimos numa jornada de cinco horas para atravessar uma parte do deserto de Uluru até a cidade de Alice Springs. Era nossa amostra, ainda que limitada, da amplitude do interior país. Depois de passar todo esse tempo viajando de avião, um belo deslocamento terrestre como esse é necessária para se apreciar devidamente a vastidão da Austrália.

O deserto e o mato seco do Outback se estendem por milhares e milhares de quilômetros.

É difícil entender como um povo pode sobreviver nessa aridez por tanto tempo, mas eles o fizeram. É isso que torna a cultura aborígine e sua relação com a natureza tão notável; por dezenas de milhares de anos eles foram os protetores desta terra.

 

Alice Springs: um choque de realidade

Nossa última parada no Território do Norte foi Alice Springs, um improvável centro urbano que se ergue do meio do deserto. Depois das experiências no Café Chloe e Uluru, foi um choque testemunhar a situação de alguns aborígines nas ruas da cidade. Muitos pareciam errantes; alguns andavam pelos parques e dormiam em bancos, outros caminhavam num êxtase induzido por várias substâncias. Quando se entende o que aconteceu – que a base de suas comunidades foi destruída e a terra e as tradições de seus ancestrais foram perdidas – dá para começar a entender porque certos indivíduos também se perdem.

Nossa experiência em Alice Springs serviu para entender a dura realidade de muitos australianos aborígines. Foi desconfortável processar, hesito em dizer. Afinal de contas – isso é realmente o que uma experiência de viagem deveria ser?

De fato, às vezes sim. Se desejamos nos envolver de forma diferente em nossas viagens, além do superficial, então é necessário que vejamos as coisas como elas são – com suas imperfeições e fontes de esperança. Só então podemos tentar encontrar maneiras de ajudar a melhorá-las.

 

Círculo completo

Nossa experiência em toda a Austrália também deixou mais clara a importância do Café Chloe, tanto para os viajantes quanto para a comunidade. A experiência coloca o projeto (na superfície, uma estação de trem renovada em Queensland reaproveitada pela comunidade aborígene local) em uma perspectiva mais ampla. A história do Café Chloe não é apenas uma página do conto da cultura do povo da floresta Jirrbal. É uma pequena porção da história de todos os povos aborígines.

É a história de desafios em face à discriminação e exclusão. É uma história de mudanças e novas oportunidades para os aborígines. Uma história de apoio para que celebrem sua cultura e reconheçam os pontos fortes da sua visão de mundo, para que possam desfrutar deles com muito orgulho e satisfação.

É também como cada um de nós, através do nosso envolvimento, pode participar desta história.

Chegando lá

Viaje para o Outback nessa jornada da National Geographic.